A escola municipal Professora Raimunda Ferreira fica a 47 quilômetros de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Para chegar lá, é preciso pegar uma estrada de terra que vira lama nos dias de chuva e poeira nos dias secos. A diretora, Conceição Lima, 52 anos, faz esse percurso há 18 anos — às vezes de bicicleta, quando o carro da prefeitura não aparece.
A escola tem 120 alunos, do primeiro ao nono ano. Tem dois banheiros que funcionam. Não tem biblioteca. A sala de informática, inaugurada em 2019 com fanfarra e foto do prefeito, tem computadores que nunca foram ligados — falta conexão à internet. "A gente usa o que tem", diz Conceição, sem amargura. "E o que a gente tem são professores que acreditam no que fazem."
A história da escola de Conceição é a história de milhares de unidades escolares no interior do Nordeste. Segundo dados do Censo Escolar 2024, mais de 12 mil escolas públicas na região funcionam sem acesso à internet. Quase 8 mil não têm biblioteca ou sala de leitura. E cerca de 3 mil ainda não têm esgotamento sanitário adequado.
O professor como resistência
Em Vitória da Conquista, na Bahia, o professor de matemática João Batista dos Santos, 44 anos, compra materiais do próprio bolso há seis anos. "Não é certo. Mas se eu não comprar, os meninos ficam sem material." Ele ganha R$ 3.200 por mês — acima do piso nacional, mas abaixo do que considera justo para a responsabilidade que carrega.
João dá aula para turmas de 35 a 40 alunos. A sala tem ventilador, mas ele quebrou em março e ainda não foi consertado. "No calor do Nordeste, com 38 graus lá fora, a concentração cai. Os meninos ficam sonolentos. Eu também fico." Mesmo assim, a taxa de aprovação da sua turma foi de 94% no último ano — acima da média estadual.
"Eu não faço isso por heroísmo. Faço porque esses meninos merecem uma chance. E se eu desistir, quem vai estar aqui amanhã?" — João Batista dos Santos, professor de matemática em Vitória da Conquista (BA)
O que dizem os números
O Brasil melhorou significativamente seus indicadores educacionais nas últimas duas décadas. A taxa de analfabetismo caiu de 13,6% em 2000 para 5,6% em 2024. O acesso à escola básica é praticamente universal. Mas a qualidade ainda é desigual — e a desigualdade tem endereço.
No Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 2023, os estados do Nordeste ocupam as últimas posições entre as escolas públicas. Alagoas, Maranhão e Piauí têm médias abaixo de 4,0 nos anos finais do ensino fundamental — enquanto São Paulo e Santa Catarina ficam acima de 5,5.
Pesquisadores apontam que a diferença não é apenas de recursos, mas de gestão. "Há municípios no Nordeste com orçamento educacional razoável que têm resultados piores do que municípios com menos dinheiro, mas com gestão mais eficiente", explica a professora Sônia Melo, da Universidade Federal de Pernambuco.
A criança que fica
Mas por trás dos números, há crianças. Ana Vitória, 11 anos, mora a 12 quilômetros da escola. Acorda às 5h30 para pegar o ônibus escolar — quando ele aparece. "Quando não vem, minha mãe me leva de moto", conta, com a naturalidade de quem já se acostumou com o imprevisível.
Ana quer ser médica. Gosta de ciências. A professora dela, Patrícia, diz que ela tem "uma cabeça fora do comum". Mas Patrícia também sabe que, sem acesso a uma boa escola de ensino médio, as chances de Ana chegar à universidade são menores do que as de uma criança nascida em Recife ou Salvador.
"Não é falta de inteligência. É falta de oportunidade. E isso é uma escolha política, não um destino", diz Patrícia, com uma firmeza que soa como manifesto.
O que pode mudar
O governo federal anunciou, em maio, um pacote de R$ 2,8 bilhões para infraestrutura escolar em municípios com Ideb abaixo de 4,0. O dinheiro vai para construção e reforma de salas de aula, instalação de internet e compra de equipamentos. É bem-vindo — mas especialistas alertam que recursos sem acompanhamento técnico costumam se perder no caminho.
"O Brasil tem histórico de investir em escola sem investir em professor. Não adianta ter laboratório de informática se o professor não foi treinado para usar", diz a professora Sônia Melo. "A infraestrutura é necessária, mas não suficiente."
De volta à escola de Conceição, no Rio Grande do Norte, a diretora mostra com orgulho o mural que os alunos fizeram na semana passada. Pinturas de personagens históricos do Nordeste — Lampião, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga. "Eles fizeram tudo. Eu só dei o pincel." Ela sorri. "Às vezes é isso que a gente pode fazer: dar o pincel e confiar."