O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,28% em maio, abaixo dos 0,38% projetados pelo mercado financeiro. É o segundo mês seguido de desaceleração, o que levou alguns analistas a revisarem para baixo suas projeções para o IPCA acumulado no ano. Mas a euforia é contida — e por boas razões.
O resultado foi puxado principalmente pela queda nos preços dos combustíveis e pela estabilização dos alimentos in natura. A gasolina recuou 1,2% no mês, reflexo da queda no preço do petróleo no mercado internacional. Já as carnes, que vinham pressionando o índice desde o início do ano, deram uma trégua — mas analistas não descartam nova alta no segundo semestre.
IPCA — Variação mensal (2025)
O que está por trás da queda
A desaceleração da inflação em maio não foi uniforme. Enquanto combustíveis e alimentos aliviaram, os serviços continuaram pressionados. A categoria "serviços", que inclui itens como plano de saúde, aluguel e mensalidade escolar, subiu 0,6% no mês — acima da média geral. Isso preocupa porque os serviços tendem a ser mais resistentes à política monetária.
"O Banco Central conseguiu domar a inflação de bens, mas a inflação de serviços ainda está rodando em patamares elevados. E essa é a mais difícil de controlar", explica a economista Ana Beatriz Fonseca, da consultoria Tendências.
"Comemorar dois meses de queda é prematuro. O que vemos é uma melhora pontual, não uma tendência consolidada. O cenário externo ainda é muito incerto." — Ana Beatriz Fonseca, economista da Tendências Consultoria
O risco externo
O principal fator de incerteza vem de fora. A guerra comercial entre Estados Unidos e China continua gerando volatilidade nos mercados globais, o que afeta diretamente o câmbio brasileiro. Um dólar mais caro encarece as importações e pressiona os preços internamente — especialmente nos combustíveis, que são cotados em dólar.
Além disso, a seca que afeta parte do Sul e do Centro-Oeste pode impactar a safra de grãos no segundo semestre, com reflexos nos preços dos alimentos. "O campo está sofrendo. E quando o campo sofre, a mesa do trabalhador sente", diz o agrônomo Renato Campos, que acompanha a produção de soja no Mato Grosso do Sul.
O que o Banco Central deve fazer
Com a inflação em trajetória de queda, a pressão sobre o Banco Central para reduzir a taxa Selic aumentou. A taxa básica de juros está em 10,5% ao ano — ainda em patamar contracionista. Alguns economistas defendem que há espaço para um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, em julho.
Outros, porém, preferem cautela. "Cortar juros agora, com o câmbio pressionado e a inflação de serviços ainda alta, seria um risco desnecessário", avalia o economista Sérgio Leal, ex-diretor do Banco Central. "O BC precisa manter a credibilidade que construiu nos últimos anos."
Para o trabalhador, a discussão sobre juros pode parecer distante, mas tem impacto direto. Juros altos encarecem o crédito, dificultam a compra de imóveis e reduzem o consumo. Juros baixos, por outro lado, podem estimular a economia — mas também alimentar a inflação se a demanda crescer mais rápido do que a oferta.
O equilíbrio é difícil. E o Brasil, como sempre, está tentando encontrá-lo.